Texto Original do Exercício.

 

Em abril de 2012, num dia que parecia igualzinho a todos os outros, logo depois do almoço, meu chefe foi à minha mesa e perguntou se eu tinha um tempinho.
— Claro – respondi.
Peguei meu laptop e o segui até uma sala de reuniões. Chegando lá, vi a diretora de recursos humanos já acomodada. Alguma coisa não cheirava bem.
Então, meu chefe começou um discurso pronto que não durou mais que cinco minutos:
– Bom, como você sabe, a empresa está passando por uma reestruturação e algumas posições estão sendo extintas. A sua é uma delas.
Pá!
– A empresa está oferecendo um pacote para todos os funcionários que estão sendo desligados, blablablá, eu sinto muito, blablablá, a fulana do RH está aqui para lhe explicar como vai ser o seu pacote, blablablá, o seu computador já está desconectado da rede da empresa, blablablá, você pode pedir ao pessoal da tecnologia para fazer back-up do que vai precisar, blablablá… – continuou ele.
Eu já não estava mais ouvindo.
Não voltei mais à minha mesa. Na própria sala de reuniões, entreguei as chaves do carro da empresa, o Blackberry e o laptop. Uma colega de trabalho pegou minha bolsa e algumas coisas pessoais, e o resto seria entregue depois na minha casa por um funcionário.
Depois de quinze anos no mundo corporativo, depois de um mestrado numa universidade estrangeira, depois de ter sido apontada por uma respeitável publicação internacional, no ano anterior, como um dos talentos em destaque no Brasil, eu estava sendo chutada para fora junto com um bolo de gente. Era apenas mais uma.
Por um lado, embora eu conhecesse muito bem todas as variáveis que tinham levado àquele momento, meu ego estava mortalmente ferido – e ainda demoraria um tempo para que eu percebesse que o que acontecera tinha sido uma enorme bênção. Por outro lado, em termos práticos, era inegável a minha sorte: eu estava recebendo uma polpuda indenização para fazer exatamente o que queria: cair fora.
Tinha passado a noite anterior inteira acordada pensando em como poderia escapar daquele mundo sem ter dinheiro, e ali estava, naqueles papéis na mão da moça do RH, a resposta do Universo à minha pergunta.
Apesar da autoestima destroçada, sentia-me ao mesmo tempo inexplicavelmente feliz. Naquela noite, saí com dois amigos para beber uma cerveja e comer pastéis e, enquanto eles se preocupavam com o meu futuro, eu sabia – ainda que não entendesse muito bem como – que tinha tirado a sorte grande.
No dia seguinte fui à praia e fiquei olhando o mar. Se aceitasse uma vaga na outra multinacional, em um cargo com ainda mais responsabilidade e poder, seria “um novo começo”, e eu me empolgaria por algum tempo com as novas pessoas e funções. Mas, certamente, após alguns meses, estaria entediada e infeliz.